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Aos Prantos: que coisa boa é sentir junto com Letrux



Quando Aos Prantos, segundo álbum da cantora Letrux, foi lançado, no dia 13 de março, o Brasil começava a se preparar para a quarentena. Do lado de cá, onde eu estava, fazia apenas uma semana que eu tinha assistido pela sétima vez o espetáculo mais recente de Nathalia Timberg.

Eu estava com aquela saudade engasgada no peito, especialmente por nosso encontro ter sido mais breve que o comum. Não deu para aproveitar absolutamente nada, e eu me sinto voltando incessantemente ao dia em que nos cruzamos, quando ela já achava que todos haviam ido embora, no corredor do teatro. Ela me disse palavras que ainda ecoam na minha mente: "Fiquei procurando por vocês, achei que não tinham podido vir."

Foi com essa sensação de terem me tirado algo, quando eu sequer tinha algo nas mãos, que fui para a casa da minha mãe, na época viajando, ouvir o novo trabalho de Letrux. Comprei um vinho mais ou menos barato e uma massa congelada. Peguei o ônibus e encontrei a prima da minha mãe. Conversamos sobre o coronavírus. Ele parecia distante. Tudo isso parecia distante.

Como aquela adolescente que esperava dar meia-noite para acessar a Internet discada, esperei o álbum entrar no Spotify. Quando, finalmente, isso aconteceu, eu fui transportada para tantos sentimentos que não dá nem para elencar. Chorei, sorri, chorei de novo. Aos Prantos faz jus ao título que leva.

A primeira faixa chama-se Déjà-Vu Frenesi, e eu comecei detestando-a. Na segunda ouvida, já estava rendida. Se você ouvir com atenção, perceberá que há uma razão para a faixa estar ali e, para mim, tem a ver com o fato de que é um convite a você mergulhar forte e fundo nas suas emoções. É só ouvir as primeiras estrofes:

Todo corpo tem água
Lágrima, suor e gozo
Todo corpo tem água, lágrima, suor ou porra
Ou a gente chora
Ou a gente sua
Ou a gente goza
Só não pode magoar

A música fez com que eu entrasse em transe. Lembranças do meu fim de semana com Nathalia Timberg vieram com tudo. A primeira sensação era a de desprezo, o puro desprezo quando eu, furiosa, virei a cara para ela. Quando não queria nem vê-la entrando no carro, não queria absolutamente mais nada com ela. A segunda sensação, bem como o título da música, era estar revivendo a mesma situação várias vezes. Meus encontros com Nathalia seguem um protocolo, e no último não poderia deixar de ser diferente. Déjà-vu, a gente já teve aqui, déjà-vu, viver é um frenesi.

E, então, entrou a segunda faixa, e eu comecei a perceber que, naquele primeiro momento, a leitura que eu faria do álbum estaria ligada ao que vivi naquele fim de semana. Isso foi mudando aos poucos, conforme a quarentena foi endurecendo, o presidente desdenhando a pandemia e tudo o que nós brasileiros conhecemos bem. Dorme Com Essa é a segunda faixa de Aos Prantos, e ela tem um versinho que me faz relembrar quando eu fui até a casa de Nathalia, passei na frente, doida para encontrá-la:

Eu delirei, achei que te vi em Copacabana
Não era você

Era só trocar Copacabana por Barra da Tijuca e estava tudo bem. Dorme com Essa é uma música sobre se preparar para quando alguém está para chegar, mas depois você manda a pessoa ir para Lisboa, manda a pessoa sair da sua vida. Posso me identificar novamente com minha situação com Nathalia? Me sinto idiota, mas fazer o que, não escolhi ser ridícula aos 28 anos. Quase 29 no momento em que escrevo este texto.

No entanto, a vida me exigiu mais do que ficar aos prantos por não ter tido meus cinco minutos com meu ídolo. Mais uma semana, e o Brasil entrou na quarentena. E aí que Aos Prantos se transformou na minha trilha sonora de isolamento, como se Letrux tivesse previsto toda a merda que vinha pela frente.

Eu Estou Aos Prantos é aquele abraço que Letrux dá em você, embora eu não saiba como seja receber um afago dela. É basicamente a música da quarentena, porque os versos dizem:

Não dá pra ter bebê
Não dá para ter um carro
Não dá pra ser
(...)
Eu ia
Numa bruta agonia
Eu estou aos prantos
Quem não?

Como canceriana, amo a estética do choro. Desde criança, minha mãe me repreendia por chorar. Ela dizia que não era legal, indiretamente que era coisa de gente fraca. Então cresci atormentada pela possibilidade de o choro mostrar minha fraqueza. Hoje, depois de três anos de terapia, posso dizer que recuperei meu relacionamento com o choro. Gosto de chorar. O engraçado é que chorei poucas vezes durante o isolamento. Talvez isso tenha refletido nas crises de ansiedade, que deram um salto mortal.

Eu Estou Aos Prantos é uma canção que, ao meu ver, define a estética do álbum, a de se entregar aos sentimentos. No álbum anterior, Letrux em Noite de Climão, sinto que o clima era de flerte, paquera. A cor chave desse trabalho era vermelho, ou seja, pecado, suor, cantada. Talvez por isso minha identificação com as faixas tenha demorado tanto. Climão nunca foi um álbum que conversasse comigo, com meu humor habitual (aos prantos?).

Letrux, ao dizer que está em uma bruta agonia, me lembra o dia em que as carreatas da morte passaram meu bairro, e eu achei que fosse morrer. Minha ansiedade derretia pelo chão, mas acabei achando um jeito de extravasá-la: xinguei na janela, coloquei Admirável Gado Novo e depois meu emocional foi se restabelecendo. No dia das carreatas, chorei. Chorei de desespero, de raiva, de ódio. Sentimentos que me sufocavam demais. A gente ouvia, aqui em casa, o álbum Aos Prantos mais do que nunca. Quem não está aos prantos com a situação lamentável do Brasil?

Vai Brotar é uma faixa que odiei à primeira vez que ouvi. Hoje amo, porque ela me lembra algo do qual estou com muita saudade no momento: festas. O mais estranho é: nunca fui uma pessoa de festas. No entanto, decidi que meu aniversário de 30 anos, no ano que vem, será uma festa para ninguém colocar defeito. De arromba, para usar uma gíria idosa que amo. Existe uma parte da música em que temos um déjá-vu frenesi, porque o arranjo usa um sample bem parecido com Ninguém Perguntou Por Você, faixa do Letrux em Noite de Climão.






Uma das coisas mais incríveis de Vai Brotar talvez seja o verso "quem não chora não consegue ir embora", ele vai e volta na mensagem sobre emoções. Chorar tem dessas, de você deixar o sentimento fluir no tempo, ir embora. Incrível também é que, mesmo sendo uma música animada, ela consegue deixar você mal. Tirei o dia para ver gente, tirei o dia para espiar, tirei o dia para ver com quem tá a cigana, diz Letrux. Parece que ela estava prevendo o isolamento, a danada. Tirar o dia para ver gente, no meu dicionário, é descer para levar o lixo.

E, então, chegamos em Cuidado Paixão, a faixa em que eu me debulho todas as vezes em que escuto. Da quarentena voltamos para Nathalia Timberg. É difícil entender, e já são três anos de terapia, porque algumas coisas me remetem tanto a uma senhora de 90 anos. Vou morrer tentando descobrir.

O fato é que Cuidado Paixão me remete ao meu último final de semana fora do isolamento, quer dizer, o final de semana em que eu encontrei Nathalia. Coincidências? Pois é. No sábado, aconteceu uma situação recorrente dos nossos encontros: ela me despachou cedo demais. Fiquei tal qual Regina Duarte pensando: "Eu tinha tanta coisa boa para dizer." Pois é. Naquele dia, nós íamos jantar juntas. Acabou antes de começar, porque ela teve um compromisso relâmpago. Odiei. Chorei em plena Rua Duque de Caxias com meu sapatinho, o das ocasiões especiais, rasguei o tornozelo. Meus pés sangraram. Chorei mais. Cheguei em casa e me amaldiçoei por ser idiota. O que eu espero ainda?

Cuidado Paixão me transporta diretamente para a sensação de estar com uma roupa bonita e não poder aproveitá-la. A sensação de chegar em casa, tão bonita, e ter que vestir o pijama surrado. Me confundi quando cê disse tchau, entendi te amo, now it's too late, baby, it's too late. Como me identifico, em certa medida, com isso. Algumas pessoas devem me achar idiota por nutrir sentimentos tão intensos por alguém que já está dobrando o Cabo da Boa Esperança. Eu também acho. Mas sentimentos são assim mesmo.

Não dei conta, vou chorar, sempre nunca, é melhor nadar é a estrofe que fecha Cuidado Paixão, e foi aí que eu caí aos prantos de novo. Porque, como eu disse, chorei demais naquele fim de semana. A frustração é um sentimento com o qual sempre lido em se tratando de Nathalia. Talvez seja por isso que eu me sinta uma adolescente indefesa perto dela. Perto de todo mundo.

É interessante perceber que, de certa forma, Cuidado Paixão encerra o ciclo depressivo do álbum. As músicas dali em diante, começando com o blues Sente o Drama, tem mensagens engraçadas, e positivas até, uma cara de Climão, talvez? Não sabia que precisava de Letrux e Liniker cantando até ouvir Sente o Drama? Que delícia de faixa! Logo já estou rindo de minhas próprias reações, que delícia e que drama é ouvir Letrux.

De todas as faixas que encerram o álbum, Salve, Poseidon é uma das minhas favoritas. Ela tem uma vibe tão para cima, me lembra os dias que passei no Rio de Janeiro, quantas saudades. Parece que consigo sentir a maresia, a textura da areia encostando no meu pé, aquele mar lindo. Nunca fui uma pessoa de mar, como Letrux é, mas Salve, Poseidon me dá vontade de mergulhar. Quem sabe eu não aprenda de uma vez, depois que acabar tudo isso? Adoraria conhecer a sensação.



Há uma parte falada de Salve, Poseidon que fala sobre coincidências. Letrux diz que queria estar em todas as coincidências do mundo, "porque é lá que as pessoas estão mais conectadas, como se isso aqui não fosse só isso aqui". Para mim, o fato de ter visto Nathalia antes do isolamento, de que teatro foi meu último entretenimento antes do isolamento diz muito sobre quem sou. Sobre o que gosto e o que é importante para mim. Talvez a Letrux quisesse estar em todas as vezes em que Nathalia frisou o quanto éramos parecidas, e cada vez mais acredito nisso. Ela de lá e eu de cá, existe uma conexão muito forte. Mal posso esperar para poder abraçá-la novamente.

Aos Prantos é um álbum que, com certeza, vai contra ao que a faixa Noite Estranha Geral Sentiu diz: "Entra, mas não fica à vontade, porque eu não tô." A gente entra no álbum, fica muito à vontade para relembrar o que quiser, o que a mente brotar. Sou muito grata por Letrux ter lançado este trabalho, porque ele tem me acompanhado nas diversas fases do isolamento. Agora eu danço as músicas esperando ansiosamente pelo show, por poder sair na rua sem medo. Ontem, eu chorava. Que coisa boa é sentir junto com Letrux.

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