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Censura às telenovelas na ditadura militar: o caso Dias Gomes


“A “Nova República” é um mito, Tancredo Neves era um mito, o milagre brasileiro foi outro mito. Infelizmente vamos precisar de muitos mitos ainda. É uma maneira de se agarrar a esperanças.”

— Dias Gomes

O ano é 2020 e, da minha janela, em isolamento social há mais de um mês, observo a carreata da morte passando pela minha rua. Os manifestantes pedem o fechamento do STF e do Congresso e a volta do AI-5. Uma mulher é agredida na rua abaixo da minha, simplesmente por estar vestida de vermelho. Nenhuma obra de Dias Gomes supera a realidade brasileira que se apresenta diante de nossos olhos.

Hoje mais do que nunca corre nas veias a sensação de que falhamos em honrar a memória daqueles que me deram o direito de estar escrevendo este texto. Será que apenas decoramos o séquito de presidentes militares e não pensamos a respeito dos impactos sociais que 30 anos de ditadura civil-militar nos trouxeram? Será que é porque nossa anistia absolveu torturadores, colocando-os no mesmo saco que os perseguidos políticos? Não há uma resposta concreta, mas a sensação é a de que, depois de mais de 30 anos, o Brasil jamais acertou-se com seu passado sangrento.

É nesse contexto que o livro Herói Mutilado: Roque Santeiro e os Bastidores da Censura à TV na Ditadura, de Laura Mattos, se insere. Parte da coleção Arquivos da Repressão no Brasil, lançada em 2019 pela Companhia das Letras, ele debruça-se sobre um assunto pouco comentado quando falamos sobre a ditadura civil-militar brasileira: a censura às novelas.

Herói Mutilado faz um belo resgate, por meio de uma pesquisa exaustiva em documentos do DCDP (Divisão de Censura de Diversões Públicas), de um produto crucial para o brasileiro e o regime militar: as telenovelas. Vistas com desdém por muitas pessoas até hoje, descobrimos, através da pesquisa de Laura Mattos, que a televisão foi muito visada pelos militares. Depois que o teatro brasileiro caiu de joelhos por conta da censura monstruosa que sofreu na primeira fase do regime militar, as telenovelas eram a nova ameaça ao poder. Autores de novela como Janete Clair eram considerados comunistas.

Nosso herói mutilado: Dias Gomes

Como toda história, é claro que temos personagens principais. Para recontar parte do que foi a censura à televisão na época da ditadura civil-militar, Laura Mattos escolheu o dramaturgo e escritor Dias Gomes e seu filho pródigo, a peça de teatro O Berço do Herói, para ilustrar a ideia central do livro.

O Berço do Herói foi uma obra proibida em 1965, um ano após o golpe civil-militar. Dez anos depois, em 1975, ela sofreria uma metamorfose, transformando-se em Roque Santeiro, a primeira novela de Dias Gomes no horário nobre da Rede Globo e a única a ser inteiramente censurada antes de ir ao ar. Mais dez anos se passam e, então, finalmente a Rede Globo consegue a liberação definitiva para que o produto vá ar. Que felicidade? Não, pois sofreu cortes profundos da censura, mesmo que já estivéssemos na época da famigerada “Nova República”, ou seja, quando o regime caiu.

Laura Mattos ilustra esses três momentos de O Berço do Herói para defender a ideia de que eles representam momentos diferentes da ditadura civil militar: a ditabranda, os anos de chumbo e a redemocratização. De acordo com a autora:

“A reconstituição dos três enfrentamentos de Roque Santeiro contra a censura — em 1965, 1975 e 1985 — elucida a maneira pela qual a repressão cultural foi sendo arquitetada como instrumento de manutenção do poder, ao sabor das oscilações das políticas da ditadura e em completa sintonia com outras formas de violência.”

Mas, afinal, o que essa peça de teatro tinha de tão subversiva para ser censurada três vezes, de três maneiras diferentes? Simples: ela metia o dedo na ferida dos falsos heróis brasileiros. A história original conta que Cabo Jorge, um ex-militar da FAB (Força Aérea Brasileira), tornou-se um herói depois de sair correndo em direção ao campo inimigo e sumir em meio ao fogo cruzado. A cidade natal de Cabo Jorge, então, desenvolve-se a partir do mito do herói de guerra. Santinhos e todos os tipos de produto são vendidos. Porém, lá pelas tantas, descobrimos que, na verdade, Cabo Jorge havia sobrevivido. Coloca-se uma questão: o que fazer? Manter o mito do falso herói? Quem se beneficia com o mito? E por quê?


Dessa forma, a peça de teatro criticava o perigo dos falsos mitos, além de desdenhar dos militares. É claro que não interessava a eles esse tipo de narrativa. Também havia outro fato: o autor era Dias Gomes, velho conhecido do SNI (Serviço Nacional de Informações), que vigiava opositores do regime. Até 1988, o SNI elaborou diversos relatórios sobre o nosso subversivo. Os passos dele eram vigiados porque o autor pertencia ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), e isso acontecia desde os anos 1950. A demissão do autor da Rádio Nacional se deu por causa de sua filiação ao comunismo, por exemplo.

Casado com uma das autoras de novela mais querida dos noveleiros, Janete Clair, Dias Gomes vivia um constante embate interno. Ele acreditava que seu destino era o teatro e por meio dele fazer a grande conscientização do povo. Porém, ao ter O Berço do Herói totalmente censurada, ele teve que se voltar para a televisão.

Em 1969, um ano após o AI-5, Dias Gomes entrou na TV Globo. Herói Mutilado nos conta que Janete Clair conversou com José Bonifácio Sobrinho, o Boni, para que ele convidasse o autor, já que era muito orgulhoso para pedir um emprego. A televisão vivia seu auge por meio das concessões públicas, e foi aí que Dias Gomes teve o pulo do gato: ele percebeu o alcance desse meio de comunicação poderia ser perfeito para criar tramas com crítica social. Vale lembrar que naquela época, a esquerda considerava a televisão “um meio de alienação, de afastar os telespectadores dos problemas”.

Assim, Dias Gomes e qualquer coisa que ele escrevia, desde Sinal de Alerta até O Espigão, era motivo de problema. Apesar disso, manteve seu estilo irônico, e não foram poucas as vezes em que deu respostas ácidas aos militares enquanto era interrogado. Em uma das vezes em que foi até Brasília, na sede da DCDP, o autor brincou que não contava “nem sob tortura” o desfecho de uma de suas novelas.

Conhecido mais pela fantástica peça de teatro O Pagador de Promessas, Dias Gomes ganha o lugar merecido na história da televisão por meio do livro de Laura Mattos. Em um momento em que percebemos tantos jovens interessados em telenovela, esse é um livro indispensável. Espaço de luta e resistência, a telenovela nunca foi alienante. Jamais.

Ato 1: a proibição de O Berço do Herói


A história do nosso subversivo preferido começa muito antes de ele sonhar em escrever O Berço do Herói. Isso porque, desde muito antes da ditadura civil-militar, o comunismo era visto como um mal a ser expurgado da sociedade. Como o comunismo era um mal, é óbvio que estava infiltrado até as entranhas no Brasil. Nos anos 1950, na era de ouro do rádio, não poderia ser diferente. Vários funcionários do maior meio de comunicação da época eram comunistas. Alfredo Dias Gomes era um deles.

Diretor de programação da Rádio Clube, Dias Gomes fez parte de uma comitiva que viajou para visitar o túmulo de Stalin, em Moscou. Ele e o diretor musical Claudio Santoro nem sabiam que haviam se metido em uma briga de gigantes ao visitarem a cidade. Isso porque a viagem para o país do comunismo só tomou as páginas dos jornais quando Carlos Lacerda, dono do jornal A Tribuna, arqui-inimigo de Samuel Wainer, o dono da Rádio Clube e apoiador de Getúlio Vargas, descobriu que podia ferrar com o rival usando a viagem como embuste. Lacerda, então, denunciou a infiltração comunista e acusou Wainer de financiar seu grupo de comunicação com o apoio do Banco do Brasil. Vargas teria atuado como facilitador do financiamento em troca de apoio ao seu governo. É claro que havia um motivo escuso por trás da denúncia de Lacerda: Wainer era dono do jornal A Última Hora, rival da Tribuna de Lacerda.



Mais do que isso, Dias viveu um dilema moral: seu patrão era pró-Getúlio, mas o PCB, ao qual ele era filiado, estava apoiando Lacerda na campanha para depor Vargas. Samuel Wainer acabou demitindo Dias Gomes. Antes da demissão, em 1942, Dias Gomes já se encrencava com a censura. Na ditadura de Vargas, tínhamos o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), que fazia o papel de censurar e veicular a imagem desejada do governo. A estreia profissional do dramaturgo se deu com a peça de teatro Pé-de-Cabra, teve dez páginas cortadas pelo Estado Novo. O governo a considerou marxista por versar sobre distribuição de renda.

Como havia entrado para a lista dos comunistas, Dias Gomes passou a assinar seus trabalhos com pseudônimos. Escreveu trabalhos para a televisão que, durante os anos 1950, começava a invadir os lares brasileiros, ainda que fosse algo muito elitista. É interessante perceber que, nesse momento, Dias Gomes partilhava do pensamento que a maioria de seus companheiros de militância tinha sobre a telinha quadrada:

“Dificilmente seriam considerados arte [a televisão]. Na melhor das hipóteses, uma arte menor, e quase sempre taxada de alienada. Meios de comunicação de massa eram sinônimos de alienação.”

Escrever programas para a televisão, naquele momento, não era motivo de comemoração para Dias. Inclusive, várias negociações desses trabalhos foram intermediadas por Janete Clair. A virada na carreira de Dias, quando ele deixou de “manchar o próprio nome” aconteceu com O Pagador de Promessas, peça que o tornou conhecido nacional e internacionalmente.

Para além do conteúdo altamente subversivo cujo enredo questionava o poder, O Pagador de Promessas no teatro marcou um momento em que o teatro brasileiro tentava se desvincular do estrangeiro, representado pelo TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), financiado por Franco Zampari, um empresário italiano. Peças capa e espada? Não, a ideia é falar sobre o Brasil com S, e não com o Z.

Sobre O Pagador de Promessas no cinema não precisamos falar muito. O filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes, em 1962, e nosso subversivo continuava seu papel enquanto militante, como consta esta entrada de seu diário:

“Sinto-me como um traidor de mim mesmo. Três violentações de personalidade me ocorreram esta semana: recebi um prêmio da Academia, fui homenageado com um almoço e tive que comparecer (por dever e gratidão) à posse de Jorge Amado. Começo a ser dominado por esse sentimento de culpa inexplicável, como se estivesse me acomodando, me aburguesando, me academizando vergonhosamente. Chega, chega, chega.”

Em meio a uma fama que o incomodava, chegamos ao ano de 1966, dois anos após a instauração da ditadura civil-militar. Depois de derrubar Jango, o alvo dos militares era o teatro. Nele, eles achavam, reinava o pior de subversivo: a esquerda cultural. Uma esquerda que, através de montagens icônicas como O Rei da Vela e Antígona, tentava conscientizar sobre o que acontecia naquele momento.


O Berço do Herói foi inspirado em um caso verídico, relatado por Euclides da Cunha em Os Sertões. Durante um conflito em Canudos, um soldado foi dado como morto e transformado em herói. Três dias depois, apareceu vivo. De acordo com Euclides, esse acontecimento simbolizava algo maior que havia acontecido na Guerra de Canudos.

Na montagem de O Berço do Herói estava a nata do teatro brasileiro. Tereza Rachel faria o papel de Viúva Antonieta, aquela que nunca havia sido, já que o herói da peça nunca havia morrido. A direção ficara a cargo de Antônio Abujamra. A peça conseguiu ser editada porque o aparato de censura da ditadura civil-militar ainda estava sendo montado, ou seja, havia algumas liberdades individuais em meio a práticas autoritárias.

No entanto, quando chegou o momento chave, ou seja, a estreia da peça, ela foi censurada por Carlos Lacerda, ele mesmo, o homem dos nossos parágrafos anteriores. Na época, ele era governador do Rio de Janeiro. Tereza Rachel relata a agressividade do governador, que chegou a empurrá-la quando o elenco foi tirar satisfações com ele.

Dias Gomes se viu sem poder fazer absolutamente nada. Seu filho, O Berço do Herói, já nascia morto, e agora? Segundo Laura Mattos, o autor ficou muito triste. Foi nesse período, no finalzinho dos anos 60, que começaria a segunda fase do embate entre Dias Gomes e a censura. Por intermédio de Janete Clair, Gomes seria contratado pela Rede Globo para renovar o time de autores de novela da casa. Começa o segundo ato da nossa história.

Ato 2: Roque Santeiro, uma novela inteiramente censurada


A atitude de Janete Clair, esposa do dramaturgo, de levá-lo para a Globo, tinha como objetivo levantar seu moral mas, indiretamente, ela estava contribuindo para infiltrar o “comunismo” na emissora do plim-plim. Inclusive, Janete, autora de novelões água com açúcar, era considerada comunista pelos militares.

Dias Gomes chegou na melhor fase que as telenovelas viviam no Brasil. Veiculada desde 1951, elas ganharam status ao se transformarem em produto cultural, isto é, durante os anos 1960. Em 1964, estrearam 31 telenovelas. A Colgate-Palmolive, patrocinadora de produções, trouxe Glória Magadan para seu departamento de televisão. Ela era uma cubana radicada nos EUA e escrevia novelas para o canal Telemundo.

Magadan é responsável pela primeira fase das telenovelas, inspiradas em tramas de Capa e Espada, com muita influência do melodrama latino-americano. A Rainha Louca e O Sheik de Agadir ilustram bastante esse primeiro momento, no qual a telenovela não falava diretamente com o espectador, mantinha uma certa distância dele, retratando uma realidade que não era a do brasileiro. Nathalia Timberg, que interpretou a protagonista de A Rainha Louca, sempre comenta que, nessa época, as pessoas estavam muito mais acostumadas a ouvir “I Love You” ao invés de “Eu te amo” em suas novelas.

A televisão interessava muito aos militares por conta do seu alcance, o que poderia contribuir para uma política de unificação política do território nacional. Por isso, diversas concessões foram cedidas a emissoras de televisão, e a Rede Globo foi uma delas. No final dos anos 60, a Globo ainda não era a líder de audiência, nem existia o famigerado “padrão Globo de telenovelas”.


Dias Gomes e Janete Clair



O legado de Gloria Magadan acabou em 1967, quando Janete Clair foi chamada por Boni para substitui-la em Anastasia, a Mulher Sem Destino, que ia mal de audiência. A tática de Clair para consertar o enredo de Gloria foi ousada: ela matou metade dos personagens em um terremoto e começou praticamente do zero.

Boni, assim como Walter Clark, tinha uma visão bastante diferente, naquela época, sobre as telenovelas. Ele as via como um produto cultural, portanto, tinham que falar com o telespectador:

"A telenovela é um produto a ser vendido comercialmente, como uma geladeira, um tipo de tecido ou um par de sapatos. Não é literatura, nem subliteratura. É um produto industrial.”

Do outro lado da equação, a esquerda percebia que a cultura de massa era irreversível. A discussão era como levar a mensagem subversiva sem abrir mão da sofisticação. De certa forma, passou a ser aceitável infiltrar-se no meio de comunicação que, outrora, era considerado alienador. Dias Gomes não foi o único filiado ao PCB que entrou para a televisão: Lauro César Muniz e Bráulio Pedroso também o eram e criaram novelas inesquecíveis, sempre sob a vigilância da censura.

Beto Rockfeller, escrita por Bráulio Pedroso, foi a primeira novela moderna, digamos assim. Com gírias e ambientada na realidade brasileira daquele tempo, a história do malandro interpretado por Luís Gustavo ganhou o país. O Brasil se identificava com aquele anti-herói. Era um caminho sem volta: a trama de capa e espada não servia mais. Até porque, por uma questão mercadológica, em que nasciam os famosos merchans, não havia como ambientar a novela em realidades distantes.

Dias Gomes começou a incendiar o parquinho logo que entrou na Rede Globo, quando ainda assinava a obra como Stela Calderón. Em um primeiro momento, ele substituiu Glória Magadan em uma novela que estava na fase de pré-produção e que, com a demissão dela, fora deixada inacabada. Gomes falou sobre inquisição e destituição, claras críticas à ditadura. Dessa forma, os militares exigiram que a novela passasse do horário das 19h para às 22h.

Curiosamente, a faixa das 22h seria onde Dias Gomes se consagraria como autor. Verão Vermelho foi a primeira novela que ele assinou com o próprio nome. A trama se passava na Bahia e carregava uma de suas marcas: a denúncia ao coronelismo e ao Brasil arcaico. É interessante perceber como esse tipo de trama interessava aos militares, pois o retrato desse Brasil atrasado favorecia a propaganda do “milagre econômico”.

Mas o que a Globo fazia, então? Se era aliada do golpe, como tolerava autores comunistas em sua equipe? É uma questão bastante espinhosa e de difícil resposta. A Globo, assim como outras emissoras, jogava dos dois lados. Ela protegia seus empregados, mas ao mesmo tempo contratava censores internos, pessoas que tinham contato com os militares ou já haviam trabalhado para eles, para fazer o meio de campo com o governo. Além disso, essas pessoas estavam na emissora para alertar para possíveis vetos.

Nesse ínterim, Dias Gomes, depois de fazer cartaz nas novelas das 22h, foi finalmente escolhido para o horário nobre da emissora. Infelizmente, isso custou o deslocamento de sua esposa para a faixa das 19h, ou seja, um horário mais desprestigiado, destinado a tramas “água com açúcar”. Enquanto escritora de novelas, Janete foi atravessada pela questão de gênero, mas isso é assunto para um texto apenas sobre ela.

Para o horário nobre, a ideia de Dias era sintetizar o Brasil por meio da trama da fictícia cidade de Asa Branca, que vivia sob o mito de um falso herói. Em uma ligação para um amigo, Dias Gomes confessou que tinha dado uma recauchutada na trama de seu filho pródigo, O Berço do Herói. O Major Chico Manga, o manda-chuva de Asa Branca, transformou-se em Sinhozinho Malta. Já a Viúva Porcina era uma versão da viúva de Cabo Jorge (futuro Roque Santeiro):

“Nos bastidores da Globo, circulavam boatos de que Roque Santeiro era uma adaptação de O berço do herói, mas com comentários velados. Todos temiam que o governo pudesse desconfiar de que a novela tinha praticamente a mesma história da peça banida dez anos antes.”

Depois de pedir a liberação da novela para o horário nobre aos militares, que aconteceria mediante a entrega do roteiro e de capítulos gravados, a Rede Globo iniciou a fase de produção da novela. Seria a primeira novela das 20h em cores, e uma cidade cenográfica foi erguida em Guaratiba, interior do Rio de Janeiro, custando mais 400 mil cruzeiros. Além disso, uma direção de arte muito meticulosa fora contratada para reproduzir a atmosfera do interior do país. O tratamento deveria ser simples, não exuberante. Estava tudo lindíssimo para a Rede Globo, até porque a censura havia aprovado os vinte primeiros capítulos de Roque Santeiro. O parecer da censora dizia:

“(…) O tema abordado não influirá negativamente na formação psicossocial e moral do jovem adolescente dos dias atuais.”

No entanto, a censora mudou misteriosamente de opinião vinte dias antes do lançamento. Começava o embate mais claro entre a Rede Globo e os militares. Depois de mudarem de opinião, a censura decidiu que a novela teria que ser repassada ao horário das 22h, “levando em consideração a sua forte temática, negativa, sob todos os sentidos”. Nesse trecho censurado, percebemos o tom elevado da crítica que Dias Gomes colocava na boca de seus personagens. A fala seguinte sobre Porcina, a suposta viúva do falso herói, que queria ter controle sobre o filme que estavam fazendo sobre Roque Santeiro:

“Tem mais esta. Ainda tenho uma censora! Fazer cinema no Brasil é pra herói! Só pra herói!”

Naquele 1975, a novela da faixa das 22h era Gabriela. A primeira ideia da Rede Globo, então, foi trocar as duas novelas de lugar. Mas havia outro problema: Gabriela também era imprópria para o horário puritano das 20h. Era um jogo em que a emissora tinha muito a perder, principalmente os patrocinadores que contavam com a exibição de Roque Santeiro no horário das 20h.

O círculo ficou cada vez mais apertado, até a Rede Globo receber um aviso muito claro de que, caso tentasse veicular Roque Santeiro, a novela seria inteiramente censurada, sem aviso prévio. Roberto Marinho, o dono da emissora, decidiu escrever um editorial de repúdio à censura para ser lido no Jornal Nacional. Ao mesmo tempo, a Rede Globo tentava reverter o veto até o último minuto, ao passo que Daniel Filho começava a editar um compacto de Selva de Pedra, grande sucesso de Janete Clair, para ser exibida no lugar de Roque Santeiro. Ela ficaria no ar até a emissora preparar outra trama para o horário nobre.

A atitude da Globo, mais do que cutucar a ditadura civil militar, a quem ela havia apoiado, era uma questão de honra com os patrocinadores. Mesmo a censura tendo liberado Roque Santeiro para às 22h, isso mutilava completamente a novela, já que a liberação dependia de a emissora seguir os cortes que o governo pedia:

“Cancelar uma novela cujas chamadas já estavam no ar era, para a Globo, como quebrar a palavra diante dos telespectadores e dos anunciantes. No dizer de Boni, ‘aquilo desmoralizava nossas competências’. Algo impensável para o padrão Globo de qualidade. Ideologias à parte era uma questão estratégica, naquele momento, deixar claro que a culpa era do governo.”

Logo, por mais que tenha sido uma atitude louvável peitar a censura tão abertamente, é bom lembrar de que a emissora sempre agiu em benefício próprio, vide a narrativa que cria neste momento para desmoralizar o presidente do nosso país. Por fim, o segundo ato da nossa história termina com o apresentador Cid Moreira lendo o famigerado editorial no Jornal Nacional. Foi um efeito bombástico. No dia seguinte, diversos artistas (entre eles, Regina Duarte, pois é) foram até Brasília falar com o presidente. No fim das contas, apenas um deles, Daniel Filho, foi recebido. Ele leu o manifesto dos artistas, assinado por Paulo Pontes, no qual repudiavam aquela atitude.

Algo que me emociona muito em relação ao segundo ato dessa história é o poder da telenovela. O veto à Roque Santeiro conseguiu fazer com que as pessoas começassem a discutir sobre censura. Nos bares, nas rodas de conversas, o assunto era um só: “Como assim censuraram uma novela?” Mexer com um dos produtos mais caros ao brasileiro mexeu com a população naquela época.

Anos depois, Dias Gomes ficaria sabendo que sua novela havia sido censurada porque os militares descobriram que ele havia adaptado O Berço do Herói para a televisão. O SNI, órgão de vigilância, grampeou o telefone do dramaturgo. Durante uma ligação de um amigo, Dias debochava dos militares, que não haviam desconfiado de sua jogada. Porém, o filho pródigo ainda teria um final feliz. Exatos dez anos depois, Roque Santeiro poderia ser finalmente apreciada pelos telespectadores.

Ato 3: a novela da redemocratização

Como a história não gira, mas capota, em 1985, o filho pródigo de Dias Gomes pôde ser exibido na televisão. Símbolo da redemocratização, Roque Santeiro consolidaria-se como um sucesso estrondoso de sua época, atingindo quase 100% dos aparelhos de TV ligados no Rio de Janeiro e em São Paulo, mesmo durante as “barrigas”, ou seja, o período intermediário da novela em que os telespectadores param de acompanhá-la porque nada de relevante acontece.

No entanto, há quem pense que não houve embates com o governo por estarmos na era da redemocratização. Muito pelo contrário. De acordo com Laura Mattos, não apenas houve embates como também cortes. A partir da redemocratização, a censura passaria a assumir um caráter moral, ou seja, ela não vetava críticas, mas qualquer coisa que atentasse contra o cidadão de bem brasileiro.

Militante como só ele sabia ser, Dias Gomes não fez parte da redemocratização apenas com suas tramas. Ele também se reuniu com Tancredo Neves, então candidato de conciliação à Presidência da República, para discutir como seria a “nova censura” no Brasil. O dramaturgo propunha uma censura etária, que mais tarde foi incorporada à constituição brasileira e é a censura que vigora atualmente.

Foi Daniel Filho quem levou a ideia de reestrear Roque Santeiro no horário nobre. Os atores da versão de 1975 foram consultados. Betty Faria, que fazia a Viúva Porcina na primeira versão, foi substituída por Regina Duarte. Lima Duarte permaneceu como Sinhozinho Malta e José Wilker entrou para ser Roque Santeiro.



Apesar de a censura ter dito “sim” à exibição de Roque Santeiro, ela o fez mediante ao exame dos videotapes. Além disso, neste primeiro momento, o personagem Padre Albano (Cláudio Cavalcanti) teria de ser vetado. O incômodo dos militares era com o fato de que o padre representava uma corrente mais radical da igreja, a Teologia da Libertação, que havia sido inimiga da ditadura civil-militar.

A abertura da novela por si só indica um trabalho muito elaborado de crítica aos militares. De cima, enxergamos carros buzinando, e depois entendemos que eles estão congestionados em cima de uma vitória-régia, símbolo da ilusão. Eles nunca sairiam dali, ou seja, a novela até poderia deslanchar, mas enfrentaria o ranço dos militares, que ainda tentavam segurar um pouco de poder que detinham. A letra da música também reforça a fé naquilo que é falso e não se pode ser:

“Não sou nenhum são Tomé / No que eu não vejo eu ainda levo fé…”

A versão de 1985 simboliza, de acordo com Laura Mattos, a ideia de que o Brasil era livre da censura sem nunca ter sido. O fim da censura era um mito. A caneta continuava rolando solta, principalmente em cenas em que as beatas de Roque Santeiro confrontam as prostitutas da cidade, simbolizadas pela Boate Sexus.

A pedido do Ministro da Justiça, contudo, depois do capítulo 109, os cortes não foram mais feitos. Eles passaram a ser sugeridos pelos censores. Isso gerou uma situação muito tensa dentro da própria censura. O cachorro não queria largar o osso, até porque tramas como a de Zé das Medalhas (Armando Bógus) e Lulu (Cássia Kis), a esposa infiel, eram inadmissíveis para as beatas, digo, censoras, que faziam parte dos órgãos. A censura só acabaria com a criação da classificação etária depois de 1988. Porém, Laura Mattos enxerga com preocupação a judicialização da censura, ou seja, quando atitudes de juízes em censurar novelas ou deslocar o horário delas são percebidas como um resquício da caneta dos censores.

Hoje, em 2020, fico pensando no que Dias Gomes acharia de tudo o que vivemos. Temos um presidente que dedicou seu voto a um torturador durante a sessão de impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff. Os algozes de ontem são os governantes de hoje. É um cenário desolador e assustador, mas a arte salva. Ela salva justamente porque nos dá forças para seguir em frente, assim como Dias Gomes seguiu criando e se reinventando, mesmo vetado tantas vezes. Somente em 1995 ele veria O Berço do Herói encenado no teatro pela primeira vez.

Millôr Fernandes dizia que o Brasil é um país com um passado pela frente. Ele tinha razão. Obras como a de Laura Mattos são essenciais para compreendermos o que o país passou e como e por que estamos, de certa forma, repetindo atos que custaram a vida de tantas pessoas e a democracia do nosso país.


A colagem de abertura do texto é de Mia Sodré.



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